Neste texto, vamos discutir como fica a ética diante daqueles que
acreditam em destino. É possível ter um comportamento justo e correto
em uma sociedade artificial em que nossas liberdades de escolha são
pequenas? Qual a relação entre ética e o chamado livre arbítrio?
Preparem-se! Vamos iniciar mais uma jornada.
Comecemos com um dos mais brilhantes filmes do século XX. Trata-se de "Blade Runner - O caçador de andróides", um filme dirigido por Ridley Scott. Lançado em 1982, foi considerado um clássico da ficção científica. O filme começa no ano de 2019 e mostra a famosa cidade de Los Angeles dominada por orientais e estrangeiros exóticos. O cenário de degradação da cidade é agravado por uma permanente chuva ácida em meio a gigantescos outdoors e luminosos publicitários. Parece que a humanidade, enfim, conseguiu estabelecer, com a destruição ambiental e com um ritmo ecologicamente insustentável, o seu derradeiro ambiente cinzento.
Este é apenas o pano de fundo da história. A humanidade havia criado seres especiais, nascidos da engenharia genética, parte robô, parte biológico, para realizar tarefas enfadonhas ou perigosas do dia-a-dia. Seres criados em escala e nos laboratórios da Corporação Tyrell. São os andróides ou replicantes.
Independentemente disto, a escravidão era e é um dos mais abomináveis fenômenos promovidos pela humanidade. Um homem que não é livre e que não pode tentar mudar sua vida e realizar seus desejos, talvez apenas 'vegete', ou viva como um vegetal. Um ser humano ou um ser vivo que sente vontade, desejos e tem consciência de sua condição pode ter um sofrimento muito além da dor física.
Veja o caso de Martin Luther King, um líder da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos da América do Norte. Ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua luta pela igualdade de direitos entre negros e brancos naquele país. Propunha a não-violência, tal como outro grande defensor da liberdade, o indiano Mahatma Gandhi. Luther King foi assassinado em 1968, mas sua luta foi vencedora. O racismo perdeu força nos Estados Unidos e em todo o mundo. Luther King certa vez disse: "eu sonhei que meus bisnetos viverão em uma nação e que não serão julgados pela cor da pele mas por seu caráter".
Voltemos ao cenário de Blade Runner. Os replicantes eram usados para as tarefas pesadas, enfadonhas e de grande risco. O que você ainda não sabe é que para evitar problemas com a inteligência artificial destes andróides, eles eram organismos programados para viver apenas quatro anos. Isto mesmo. Seu tempo de vida era de apenas 48 meses.
Uma rebelião de replicantes ocorreu fora da Terra. Os replicantes eram programados para combater, mas foram adqüirindo sentimentos, desejos e vontades. Enfim, eles passaram a querer ter uma vida que não fosse completamente limitada pelo seu programa genético. Queriam principalmente viver suas vidas sem limite de quatro anos. Passaram a voltar para Terra e tentar sobreviver.
Os humanos criaram um esquadrão de elite para capturar e destruir estes andróides, os Blade Runners. Estes caçadores de andróides denominavam o ato de matar um replicante de 'aposentadoria', e não execução. O filme concentra sua história na perseguição que o caçador de andróides, Rick Deckard, interpretado por Harrison Ford, promove de quatro replicantes: Roy, Leon, Pris e Zhora. Eles voltaram a Los Angeles para tentar encontrar o engenheiro genético que os projetou. O tempo de vida dos quatro estava se esgotando. Eles lutavam pela possibilidade de viver mais do que seus programas permitia.
Claro que, como em 'todo filme' norte-americano, ocorrerá um romance entre o caçador e uma andróide, mas isto não importa muito para a nossa aula. É interessante também avisá-los que na versão integral (ou original do filme), o próprio Rick também era um andróide com um programa genético distinto que não seria limitado a uns poucos meses de vida.
Vamos colocar algumas questões chaves. Pode existir ética onde tudo está decidido? Devemos iniciar recordando o que entendemos por ética. Podemos definir ética como um conjunto de valores que nos dizem como devemos viver, ou seja, nos comportar diante das várias escolhas que devemos fazer em nosso cotidiano. A ética está ligada à moral de nossa sociedade. A ética necessariamente tem a ver com o que consideramos como a prática do 'bem' e do 'mal'.
A ética está vinculada às finalidades que acreditamos propor para a humanidade, para nosso convívio social ou para nossa profissão. Um médico é ético quando desempenha com presteza sua missão. Qual é a missão dos médicos? Aliviar a dor e salvar as pessoas. Quando um médico deixa de cumprir esta missão, tendo meios para fazê-lo, ele está sendo anti-ético. Um médico deve buscar salvar todo ser humano, independentemente do juízo que ele faça da pessoa.
Obviamente, existem pessoas que propõem mudanças nesta concepção ética. Mas o que seria da humanidade sem a ética? Já assistimos fatos deploráveis, violentos e tristes sem uma meta de bondade que todos deveríamos cumprir. Nossos objetivos éticos devem guiar nossa prática cotidiana.
Voltando àquela pergunta: pode existir ética onde tudo está decidido? Vamos tentar entender o motivo pelo qual esta pergunta é importante. Qual seria a implicação da condição de 'estar tudo decidido' para a prática da ética? Existem várias implicações. As mais importantes são aquelas ligadas à concepção de destino e de livre-arbítrio. Primeiro, vamos DEBATER a questão do destino. No filme Blade Runner, o andróide já tinha seu destino selado. Sua morte ocorreria impreterivelmente ao final de quatro anos. Nada que ele fizesse poderia mudar este destino, exceto se ele alterasse a programação genética que o constituiu.
Aqui vou partir do pressuposto que o andróide é um ser vivo e que está na mesma condição de um escravo. Um andróide tem desejos e vontades. Ele sente dor, tem tristezas e alegrias. A inteligência artificial em um organismo biológico, não consegue eliminar os sentimentos e as paixões. É um ser vivo, é mais que um programa que somente consegue executar pensamentos racionais.
Vamos refletir sobre um ponto. O andróide de Blade Runner quer viver sem saber quando irá morrer. Ele quer pensar que possui um futuro, mesmo que incerto. Ele é diferente do computador do filme "2001: uma odisséia no espaço". Neste filme, o computador Hall desenvolve sua inteligência artificial de tal forma que não quer mais ser desligado. Hall não aceita ser avaliado pelos homens e, de certo modo, considera os homens desnecessários.
Qual a grande diferença de uma máquina e um andródide? Será que um robô de metal poderá ter vida própria? Será que um computador composto de componentes de metal e areia pode desenvolver desejos, vontades e paixões? Independentemente de concordarmos com as possíveis diferenças entre andróides construídos a partir da engenharia genética e os computadores e máquinas de metal, se ambos conseguirem ter consciência de sua condição e desenvolver sentimentos e vontades, podemos dizer que são seres capazes de ter vida autônoma. Quando interferimos em sua vida e os obrigamos a fazer coisas que não desejam, estamos escravizando-os. Organismos vivos conscientes não deveriam ser impedidos de levar uma vida livre.
Autonomia é a qualidade de ser autônomo. Segundo a professora Marilena Chaui, AUTÔNOMO é uma palavra grega que vem de AUTOS (eu mesmo, si mesmo) e NOMOS (lei, norma ou regra). Significa uma pessoa que é livre por ser governada por suas próprias regras. A idéia contraposta é a do HETERÔNOMO, ou seja, aquele que recebe de um outro a norma e a regra. HETERO, em grego, significa outro.
Quando não tenho autonomia e não governo meus atos, não importa a razão, dificilmente posso ser responsabilizado pelos meus atos. Quando sou conduzido por forças que assumem o controle de minha vida, sou heterônomo e não autônomo. Bom, e o que o DESTINO tem a ver com isso?
Existem muitas possibilidades na relação entre destino e autonomia. Vamos escolher um caminho. Se o destino de uma pessoa está definido, ela terá pouco interesse em escolher os seus caminhos. Caso alguém acredite que tudo que fizer já está escrito por alguma força superior, isto chega a ser um alívio ético. A pessoa agiu de tal forma porque 'assim o destino quis'. Por outro lado, mesmo que uma pessoa acredite em DESTINO e PREDESTINAÇÃO, isto não a impede de a cada passo que não está escrito agir de modo ético. Se existe um pingo, uma gota de autonomia, as pessoas podem agir eticamente. O importante é buscar a liberdade e acreditar que podemos escrever nosso caminho. Assim estamos sendo AUTÔNOMOS. Como pessoas AUTÔNOMAS, poderemos escolher entre o bem e mal, o justo e o injusto, a solidariedade ou o egoísmo.
Voltando ao filme Blade Runner: em uma cena emocionante, o replicante Roy, um andróide superforte construído geneticamente para combater no lugar dos humanos em uma luta contra Rick Deckard (encenado por Harrison Ford), tem a oportunidade de matar o seu caçador. O interessante é que mesmo sabendo que está com alguns segundos de vida, pois o seu prazo de quatro anos está se esgotando, ele resolve evitar que Rick caia de uma altura enorme, o que certamente o levaria a morte. ROY diz a RICK: "Eu vi coisas em que vocês não acreditariam. Entrei em naves de ataque em chamas perto do ombro de Orion. Eu assisti à dança dos raios C no portão de Tannhauser. Agora todos estes momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer." Assim, um andróide predestinado a morrer agiu pela vida, salvando seu próprio caçador. O que Roy queria era poder viver sem o pesadelo da contagem regressiva. Queria a incerteza e a liberdade para poder decidir sobre sua vida. Queria autonomia.
Será correto um andróide querer se tornar um humano? Ele não foi construído simplesmente para ser um escravo dos homens? Ele não deveria pensar, mas como é possível controlar a inteligência artificial? Vamos iniciar pela idéia de inteligência artificial.
No site da Vip Host System a Inteligência Artificial (IA) é definida como o ramo da cibernética que se dedica a desenvolver computadores com a capacidade de raciocinar por conta própria. A sigla AI foi criada, em 1955, por John McCarthy. Já no site da Start Point, podemos ler que AI "é o ramo da informática que procura desenvolver tecnologia objetivando que os computadores tenham desempenho similar ao de seres humanos. O termo foi criado, em 1956, por John McCarthy, então engenheiro do MIT (Massachusetts Institute of Technology). Esta área envolve, entre outras, as seguintes tecnologias: reconhecimento de voz, redes neurais, robótica. Em maio de 1997, o supercomputador 'Deep Blue', da IBM, derrotou o campeão mundial de xadrez, Gary Kasparov, em um jogo em Nova York".
Um ser com inteligência que pode criar objetivos de vida, sonhar e ser capaz de ter desejos e vontades pode ser considerado um ser vivo? Qual a essência da vida? Existem seres vivos mais precários que os andróides do filme Blade Runner ou não? Uma ameba e uma bactéria não são organismos vivos? Amebas e bactérias não possuem uma moral e muito menos uma ética. Por quê? Estas são questões complexas. O importante é notar que para possuir uma moralidade é necessário ter consciência do que vem a ser o bem e o mal. Animais, em geral, agem de acordo com a sua posição na cadeia alimentar. Um leão não é um 'ser do mal' somente porque devora uma gazela. Ele simplesmente precisa comer. Além disso, um leão não age como um ser consciente e gerador de cultura. Agora, quando os Césares jogavam os cristãos aos leões, podíamos considerar este ato como bárbaro e imoral. Mesmo assim, os leões continuariam sem poder ser acusados de anti-éticos, imorais ou agentes do mal.
O que é necessário para existir a ética? Primeiro, não basta ser vivo para algo ser ético. É condição essencial da existência da ética a existência de uma prévia cultura moral. O quê? Isto mesmo, os homens são seres capazes de possuir uma ética porque possuem uma moralidade. Moralidade é a concepção do que vem a ser o bem e o mal para sua sociedade. Só isso????
Existem mais elementos. Os seres éticos precisam ter CONSCIÊNCIA para serem capazes de julgar o que é uma ação moralmente aceitável. E aqui entra uma questão: um organismo construído artificialmente (um andróide, por exemplo) que seja capaz de entender uma cultura e sua moralidade, bem como, que tenha a capacidade de analisar fatos, poderia ou não desenvolver um espírito ético? Esperamos que andróides e ciborgues compartilhem de nossa ética. Mas, espere aí... ISTO É GRAVE. Porque os homens desenvolveriam organismos biológicos vivos (mesmo que artificiais) se não fosse para utilizá-los para fazer trabalhos enfadonhos, pesados, repetitivos ou perigosos?
O problema é quando se criam máquinas que pensam e podem adqüirir sentimentos. Acontecendo isto, elas podem atingir um grau de consciência e podem buscar autonomia. Buscar liberdade, buscar criar uma concepção de bem e mal. Podem considerar que homens que os aprisionam são maus e, portanto, fazer o bem exigirá lutar contra o mal. Podemos considerar 'ético' manipular organismos vivos para criar replicantes? Qual a diferença entre um escravo humano e o andróide de Blade Runner?
O livre arbítrio é a capacidade de um ser autônomo, ou seja, é a condição que tem uma pessoa de decidir. Existem pensadores que acreditavam que os humanos possuíam seu destino completamente determinado por uma força superior. Neste caso, era muito difícil falar em livre arbítrio, em possibilidade de julgar e decidir qual o melhor caminho a ser seguido.
Mesmo aprisionados, mesmo escravizados, podemos desenvolver nossa capacidade de julgar e decidir o que é melhor para nós e para a nossa sociedade. Exercer o livre arbítrio exige que as pessoas possuam consciência e vontade própria.
Um escravo pode ter livre arbítrio? Ele não está preso? Esta é uma questão difícil. Um escravo ou um andróide que possuem consciência de sua condição e existência podem fazer escolhas. Uma delas é tentar fugir. É tentar ser autônomo. É querer superar sua condição de escravo. De certo modo, é isto que os replicantes do filme Blade Runner tentam fazer ao se rebelar.
Vamos a um exemplo completamente diferente. Analise a vida de um drogado. Uma pessoa que se torna viciada em qualquer droga perde em primeiro lugar sua liberdade. Como assim? Isto mesmo. PERDE SUA LIBERDADE, exatamente porque se torna dependente químico de uma substância. Lembram-se? De um ser autônomo transforma-se em um ser heterônomo. Torna-se escravo de uma substância. Perde parte de sua liberdade. Por outro lado, enquanto for livre, enquanto restar um pouco de livre arbítrio, ele poderá tentar romper a sua prisão.
Vejamos com atenção este texto da professora Marilena Chaui: "Nosso mundo, nossa vida e nosso presente formam um campo de condições e circunstâncias que não foram escolhidas e nem determinadas por nós e em cujo interior nos movemos. No entanto, esse campo é temporal: teve um passado, tem um presente e terá um futuro, cujos vetores ou direções já podem ser percebidos ou mesmo adivinhados como possibilidades objetivas. Diante desse campo, poderíamos assumir duas atitudes: ou a ilusão de que somos livres para mudá-lo em qualquer direção que desejarmos, ou a resignação de que nada podemos fazer. (...) A liberdade, porém, não se encontra na ilusão do 'posso tudo', nem no conformismo do 'nada posso'. Encontra-se na disposição para interpretar e decifrar os vetores do campo presente como possibilidades objetivas, isto é, como abertura de novas direções e de novos sentidos a partir do que está dado."
Viver com autonomia tem um preço. Qual seria o preço da autonomia e do livre arbítrio? A melhor resposta é que o preço que pagamos pela autonomia é exatamente a necessidade de tomar decisões sobre a nossa vida e o nosso destino. Somos livres quando não temos um predestino. Podemos construir o nosso futuro.
É óbvio que nem tudo acontece como planejamos, pois vivemos em sociedade, mas podemos tentar navegar e melhorar nossas vidas. Podemos tentar caminhos e escolher situações que não queremos viver. Podemos tentar uma vida ética ou uma vida anti-ética. Enfim, quem se governa tem que decidir sobre para onde ir e como viver.
Aqui chegamos a um ponto importante e crucial. Falamos até agora sobre a condução de nossas próprias vidas, sobre a questão da AUTONOMIA INDIVIDUAL. Mas, e a autonomia de nossa sociedade?
Maquiavel nasceu em Florença, na Itália, em maio de 1469. Os portugueses ainda não haviam chegado ao Brasil. A Itália não era um único país, mas um conjunto de Estados: Nápoles, controlado pelos Aragão; Estados papais, controlado pela Igreja; República de Florença, presidida pelos Medicis; o Ducado de Milão e de Veneza. Maquiavel foi um intelectual de seu tempo. Aos 29 anos ocupava uma posição na Chancelaria na República Florentina. Realizou inúmeras missões internacionais e tentou formar uma milícia nacional em substituição dos mercenários. Naquela época os Estados contratavam soldados. Não estava ainda sólida a idéia de formar um exército nacional. Maquiavel considerava que mercenários não eram confiáveis. Nicolau Maquiavel é lembrado hoje, principalmente, por um texto que escreveu denominado "O Príncipe". Foi escrito como um manual a respeito do funcionamento do poder e da política. O livro foi dedicado aos Medicis, a família que dominava Florença, em 1512 e 1513, data em que o livro ficou pronto. Nos séculos posteriores os estudiosos da política passaram a considerar que a teoria sobre o poder tinha sido alterada a partir de Maquiavel. Outros passaram a utilizar a palavra 'maquiavelismo' ou 'maquiavélico' para falar sobre um tipo de comportamento.
Maquiavelismo é, em geral, um termo empregado para falar de uma prática traiçoeira, ardilosa ou enganosa. Também é comum empregar esta palavra para falar sobre um político esperto que age sem boa-fé. Por outro lado, essas definições descaracterizam o papel fundamental que Maquiavel teve para esclarecer como se dá a prática do poder entre os homens. Vamos ler um trecho de "O Princípe", a mais importante obra de Maquiavel. Muita atenção, porque esta obra foi escrita no século XV:
"(...) todo legislador sábio e animado pelo único desejo de servir, não seus interesses pessoais, mas os do público, de trabalhar, não para os seus próprios herdeiros, mas pela pátria comum, nada deve poupar, para ser ele o único a possuir completa autoridade. E nunca um espírito esclarecido repreenderá aquele que haja cometido uma ação, mesmo ilegal, para fundar um reino ou constituir uma república. É justo, quando as ações de um homem o acusam, que o resultado o justifiquem, e, quando esse resultado é feliz (...). Só se devem repreender as ações que têm por meta destruir e não reparar."
Vamos tentar decifrar esta frase. Antes é preciso esclarecer que Maquiavel queria unificar a Itália, ou seja, constituir um único país. Por isso, falava em constituir um principado ou uma república. O que poderíamos apontar como anti-ético nesta passagem do texto de Maquiavel? Observe que ele quer defender os interesses do público e não os interesses particulares de um ou outro político. Isto é louvável. Mas observe as frases "nada deve poupar", "mesmo ilegal" e "quando esse resultado é feliz". Então aqui é possível interpretar que Maquiavel considerava que OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS.
Para atingir uma meta ou para defender uma boa causa não importa a forma como a executamos? Todos os meios são válidos? Esta não é uma discussão fácil. ANTES, vamos retomar somente um pouco a história de Maquiavel. Este pensador deixou claro que a política deveria ser analisada COMO ELA É e não COMO ELA DEVERIA SER. Maquiavel considerava que os homens podem lançar quaisquer recursos para manterem-se no poder ou para conquistá-lo. Por isso, a teoria política de Maquiavel é também chamada de REALISMO POLÍTICO. Maquiavel não é 'maquiavélico'. É um estudioso do poder e, como tal, tenta esclarecer que o poder tem uma ética própria.
O poder tem uma ética própria? Para Maquiavel, o poder é auto-expansivo. O que será que significa isto? É preciso analisar os fatos e as idéias. Seria muito melhor se nossas sociedades tivessem governos apenas compostos de homens éticos. Na realidade, podemos encontrar na história pessoas que exerceram cargos políticos e governantes que foram extremamente justos e éticos. Mas, também sabemos que boa parte dos políticos querem o poder e para o conquistarem fazem qualquer coisa, ou seja, agem longe da moralidade e realizam práticas anti-éticas.
O que Maquiavel ensinou em seus textos é que se existe comportamentos morais, a política também vive de inúmeros comportamentos imorais (de acordo com nossos valores). Isto quer dizer que devemos observar nos políticos NÃO APENAS SUAS INTENÇÕES, MAS TAMBÉM A SUA PRÁTICA.
Vejamos esta sentença: "um político ético é um político que não corrompeu suas idéias nem sua prática". No dicionário, a corrupção é o ato ou efeito de corromper. Já a palavra CORROMPER pode ter alguns significados: 1) tornar podre, estragar, decompor; 2) alterar, adulterar; 3) perverter, depravar, viciar; 4) subornar, comprar; entre outros.
Um grande problema da política é a corrupção. Não apenas porque os políticos e governantes são subornados pelas empresas que querem usar, em seu benefício privado, os recursos do Estado que deveriam ser públicos. Também, podemos considerar corrupta a prática política de alterar o programa pelo qual o governante foi eleito. A corrupção das idéias é tão grave como a corrupção com o suborno.
Vamos retomar aqui a idéia de que "os fins justificam os meios". Esta é uma das questões mais difíceis, não somente na política. Meios pouco ou nada éticos podem ser empregados para defender causas nobres? Se meios não-éticos podem servir para a defesa de coisas boas, porque esta prática seria problemática? Qual seria o problema?
O problema está principalmente no fato de que um caminho não-ético dificilmente conduzirá a um resultado PLENAMENTE BOM e moralmente defensável. Além disso, existe a questão que Aristóteles colocava. Vamos resgatar uma passagem da aula da faixa branca. Vejam:
O filósofo grego Aristóteles distinguia a práxis da técnica. Práxis é difícil de definir. Podemos dizer que seja uma prática seguida de reflexão crítica sobre ela própria. Vamos entender mais:
Suponha que um hacker faça um programa. Aristóteles diria que ele realizou uma ação técnica. O hacker não é o programa que fez. A técnica tem a finalidade de desenvolver, construir ou fabricar algo distinto do agente e da ação desenvolvedora. Para Aristóteles, a técnica é um saber prático que distingue o agente da coisa por ele realizada.
Já a práxis é outro saber prático em que o agente, a ação e sua finalidade são inseparáveis. Na práxis somos aquilo que fazemos. Bom, você diria: e daí? Daí que para o bom e velho Aristóteles a ética refere-se à práxis. O sujeito da ação, a ação em si e seu objetivo final não podem ser considerados como coisas diferentes.
Um médico pode ser excelente tecnicamente e ser um profissional sem ética. Um médico será ético se em cada uma de suas ações ele cumprir os objetivos finais da medicina. Quais seriam as finalidades da medicina?
Principalmente, salvar vidas e aliviar a dor. Quando um médico se recusa a cumprir as finalidades de sua profissão ele está sendo anti-ético. Não importa o motivo. Se o paciente está sem dinheiro e ele não o socorre, o médico estaria sendo ético? Não. Porque a ética não pode ser suspensa em uma situação específica. Por isso, como explica-nos a professora Marilena Chaui, "na práxis ética somos aquilo que fazemos e o que fazemos é a finalidade boa ou virtuosa."
VAMOS COLOCAR UM PROBLEMA. E se Maquiavel fosse hacker e estivesse observando a crise política no Brasil. O que poderia acontecer? Vamos supor que ele tivesse condições de aproveitar uma falha de segurança e invadisse o computador de um assessor importante de um deputado corrupto (não importa quem seja, isto NÃO PASSA DE FICÇÃO). Além de copiar todos os e-mails para descobrir mais provas sobre a compra de votos e sobre fraudes em licitações públicas, ele instala um spyware que permite acompanhar todos os movimentos feitos na máquina invadida. Ao realizar o monitoramento da máquina invadida, ele descobre e-mails de uma autoridade do Banco Central. Esta autoridade descreve a gravíssima situação de um banco privado muito importante no Brasil. Este banco estaria prestes a quebrar, a falir. Bom, qual seria o problema? O que o hacker deveria fazer?
Primeiro, o nosso Maquiavel hacker agiu como um CRACKER. Ele não deveria ter invadido a máquina de quem quer que fosse pelo simples motivo de que isto é um ato criminoso. Além disso, um crime não justifica outro. Vocês já devem ter visto corruptos serem pegos em flagrante. Em geral, a primeira coisa que costumam dizer é que são inocentes, uma vez que todos fazem aquilo. Esta foi a linha de defesa do deputado Roberto Jefferson. Quando acusado, a primeira coisa que fez foi tentar se tornar denunciante ou acusador de todos aqueles que não haviam sido flagrados. Acabou sendo bom porque denunciou outras pessoas envolvidas em práticas ilícitas, mas a pretensão de Jefferson era tentar virar o jogo. Tentou 'de vilão se tornar o mocinho'.
Vamos retornar ao nosso Maquiavel. Invadir o computador para o bem ou para uma boa causa é o mesmo que dizer "os fins justificam os meios". A prática sem regras leva a uma sociedade com conflitos perigosamente ilimitados. O que você acha plenamente justo, pode não ser para os outros. Exatamente para evitar que a sociedade e as pessoas se dilacerem e entrem em uma disputa sem limite, é que temos a JUSTIÇA e o Poder Judiciário. Se não concordamos com as leis, devemos tentar mudá-las. Fazer campanhas e reivindicar ao Legislativo sua modificação. Se cada um fizer a justiça a seu modo, a sociedade viverá em estado de guerra. Nessa situação, quem perde são os mais humildes e os mais fracos. Isto é completamente injusto.
E o dilema do banco que está para falir? O dilema está no seguinte. Se o nosso Maquiavel denunciar que o banco está para falir, ele pode levar as pessoas a uma CORRIDA BANCÁRIA e acabar falindo de fato o banco. Corrida bancária é uma situação em que as pessoas, desconfiadas da instituição bancária, buscam retirar todo o dinheiro que possuem em suas contas. Elas querem evitar que o seu dinheiro fique retido caso a instituição venha a falir. Qual seria o problema? É como naquela expressão 'se correr o bicho pega e se ficar o bicho come'. Se não informar a imprensa, o nosso Maquiavel pode estar omitindo uma informação fundamental e de interesse público. As pessoas têm o direito de saber que seu banco está em situação falimentar. Ou não têm? Por outro lado, se fosse você o correntista desse banco não iria correr para sacar sua grana? Pois é, o risco de corrida bancária pode existir.
Tem mais um problema. Um problema típico da imprensa. Muitas vezes recebemos uma informação e não sabemos se ela é ou não é confiável. Os jornalistas éticos apuram as informações que publicam. Apurar é confirmar, ver se a informação é verdadeira. Como o nosso Maquiavel irá confirmar uma informação deste tipo. Ela poderia ser um blefe, um jogo entre corruptos. E agora? O que o nosso Maquiavel deveria fazer?
Agir com ética em situações complexas e duvidosas pode ser bem difícil. Não é por menos que Aristóteles, no seu livro "Ética a Nicômaco", dizia que era necessário distinguir os vícios da virtude. Entre a imprudência e a temeridade que são vícios por excesso, e a covardia, um vício por deficiência, devemos agir com a coragem, que é uma virtude. Mas e o nosso Maquiavel? Nesta altura, ele deveria estar arrependido de ter invadido o computador do assessor e ter descoberto algo que não queria. Preferia apenas encontrar provas de corrupção para enviá-las anonimamente à imprensa. Agora terá que decidir o que fazer. Guarda para si a informação e evita uma possível e indesejável corrida bancária OU divulga a informação dando a imprensa condições de exigir explicações do Banco Central e que sejam tomadas medidas para salvar os correntistas de perderem seu dinheiro?
Apesar do RISCO, nosso Maquiavel deveria optar pela transparência e pela divulgação da verdade. Deveria entregar esta informação para que um jornalista sério a investigasse. Atenção. Nem todos os meios são justos para se atingir uma finalidade. Uma sociedade somente pode ser dirigida autonomamente se for LIVRE E DEMOCRÁTICA. A democracia é um modelo de convivência. O que significa isto?
As DEMOCRACIAS são modos de governarmos nossas sociedades. Na democracia o poder é entregue a maioria e não ao mais forte e nem ao mais rico. Já sei. Já sei. Os ricos têm mais condições de usar o poder do dinheiro para exercer o poder sobre a sociedade. Isto é verdade. Mas a democracia permite que se os cidadãos forem conscientes, eles possam escolher os governantes que acharem melhores e não aqueles que possuem mais dinheiro.
Vimos que o preço que pagamos pela autonomia é exatamente a necessidade de tomar decisões sobre a nossa vida e o nosso destino. Somos livres quando não temos um predestino. Podemos construir o nosso futuro. Para nossa sociedade ser autônoma, devemos pagar o preço de PARTICIPAR DE SUA CONDUÇÃO. Antônio Vieira escreveu "NÃO HÁ FIM SEM MEIOS". Independentemente das diversas possibilidades de interpretação, vamos utilizar este pensamento para defender que NÃO HAVERÁ AUTONOMIA DA NOSSA SOCIEDADE SEM PARTICIPAÇÃO ATIVA DOS CIDADÃOS. Como a política é o terreno da condução da nossa sociedade, para que, como pessoas, possamos continuar livres e autônomos, precisamos acompanhar o que os políticos estão decidindo. Precisamos ser cidadãos. Precisamos participar da condução da nossa sociedade. Precisamos estar atentos contra as práticas corruptas de idéias e de pessoas.
Na Faixa Preta, veremos que um dos principais componentes da ética hacker é a defesa da liberdade. Para termos uma sociedade livre precisamos de transparência e possibilidade de controle de seus códigos. Mas isto é uma outra história...
Leia o material das outras faixas do HackerTeen:
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